Desde que iniciei minha carreira, em 2001, tenho feito releases regularmente. Já produzi textos assim para diversos músicos e também festivais, programa de rádio, etc. É um tipo de redação que me agrada. Aqui separei alguns dos principais.

:::: Fernando Deluqui – Delux (2007)

fernando-deluquiO que mais gosto no Fernando Deluqui é a sua sinceridade, espinha dorsal de tudo que se atreve a fazer. Isso mesmo, se atreve. Afinal de contas, qual projeto de vida existe sem atrevimento, desafio ou risco a ser corrido? Nenhum. Da mesma forma, toda empreitada precisa de combustível eficaz para transformar dedicação, fé e paixão em resultado prático. É justamente aí que entra a sinceridade, força motriz de Delux, um trabalho bom e bem-feito, confeccionado com consistência pela garra desse experiente músico.

Quando coloquei o disco para tocar, uma boa surpresa: a via óbvia do revival e das amarras ao passado foi absolutamente descartada. Graças a tudo que há de bom nessa vida! Com mais de duas décadas de estrada, Fernando Deluqui já vivenciou praticamente todos os estágios do rock’n’roll (sucessos, boas ou baixas vendagens, turnês). Melhor de tudo, a principal lição foi aprendida: seguir em frente com coerência. Posso garantir que suas novidades carregam o ar puro da continuidade de uma jornada séria – e nada de apelações.

Guitarrista versátil, Fernando Deluqui nunca fez cerimônia para criar e incrementar seus arranjos, seja com o RPM, com os Engenheiros do Hawaii ou em carreira solo. Para um músico e, principalmente, um guitarrista, isso é vital. Quem não se renova acaba calcificado rápido demais. O guitarrista paulistano, entretanto, tem suingue, tem poesia, tem colorido nos riffs e solos que compõe. A prova cabal está nos shows e na sua discografia. Delux e suas faixas ilustram bem isso. Melhor Assim, versão para a canção de Edson Carvalho, tem a missão de abrir o disco. “Me identifiquei com a letra e senti o potencial da composição. É como se fosse uma música minha”, empolga-se. Com energia e punch, a canção arrasta um eletropop de primeira linha, digno de chacoalhar qualquer esqueleto inerte. Escolha acertada para emendar duas de suas crias, Aquele Beijo (Jamais) e Nossa Porta Aberta. Essa última, por sinal, será o primeiro single de Delux e ilustra o atual momento da carreira de Fernando Deluqui. “Depois de fazer shows em ginásios e estádios com o RPM e com os Engenheiros do Hawaii, estou tocando em locais pequenos, como casas noturnas, bares e pubs. Isso tem me deixado muito contente por causa da possibilidade de estar mais próximo do público”. Nossa Porta Aberta carrega peso com balanço distribuído por melodias grudentas, ou seja, a receita infalível do pop perfeito. Outra versão gravada foi , que, mesmo antes do disco ser lançado, já se tornou uma das preferidas nos shows. “Há uma empatia imediata com o público”, confirma o guitarrista. foi composta por Tatá Aeroplano, que também assina Desesperadamente, dele com Fernando Deluqui. “É um dos momentos mais melódicos do disco”, aponta o guitarrista, que promete: “Já estamos fazendo outras canções”.

De repente, chega a faixa de número 4, Porão, sua parceria com Humberto Gessinger. Não pude deixar de ouvi-la inúmeras vezes. Hit nato, sem exagero nem pieguice alguma. “Fazia tempo que não trocava ideia com o Humberto”, explica. “Imaginei que podíamos arrebentar fazendo dueto vocal. Fui para Porto Alegre e gravamos a música mais rock’n’roll do disco”. Além das interpretações de cada um, letra, levada e toda a atmosfera de Porão estão perfeitas. Não vou estranhar se o público achar o mesmo.

Disco bom é aquele cujas músicas não deixam o pique ir embora e Delux está completamente afinado a esse requisito. O repertório está bem distribuído, seguindo uma linha conceitual interessante, que equilibra momentos de pauleira e de tranquilidade com sabedoria. Em meio a essa variedade encontramos desabafos (O Vagabundo, Quem Vai Mudar), reflexões (Quem É Você?, Na Onda Certa, Feiticeiro) e amor (Explode o Amor, Chuva). A inspiração de Fernando Deluqui mostrou-se bastante conectada ao suingue do pop atual, sem deixar de exalar suas raízes. Seja no quesito instrumental ou no que tange caneta e papel, o guitarrista paulistano equalizou suas ideias de maneira honesta. Das quatorze faixas, dez delas levam somente sua assinatura, além de assinar também a produção do disco.

As temporadas que o guitarrista tem feito nos últimos anos recolocaram-no diante de seu público. Voltar à rotina da estrada e do contato direto amadureceu muito seu trabalho. O brinde a tudo isso está bem aqui, degustado com elegância e propriedade. Delux representa um clímax criativo conectado ao capricho dos anos. “É o melhor momento da minha carreira, por isso resolvi investir em mim”, arremata Fernando Deluqui.

:::: Mutantes – Mutantes Depois (2008)

mutantesNos últimos meses, os Mutantes andaram meio desligados, um tanto sumidos. Mergulharam num silêncio duradouro, rompido apenas neste abril de 2008. Foi então que Sérgio Dias ressurgiu para dizer que o grupo esteve, na verdade, bastante ocupado. E mais, arrematou de maneira firme e precisa: “Sim, estamos muito vivos e viemos para ficar”. Dessa forma, através de um comunicado oficial à imprensa, qualquer mandinga ou boato desconsertado foi exorcizado. Estamos, sim, testemunhando uma nova fase do grupo. Ainda bem!

A boa notícia veio acompanhada de outra melhor. Finalmente poderemos conhecer uma das crias do atual processo. Eis a música Mutantes Depois, a qual, de acordo com o guitarrista, fala “sobre o nosso público, os reais mutantes e de cuja energia somos feitos. Como uma pessoa só”. Tal celebração ganha um sabor mais especial por acontecer justamente quando os Mutantes completam 40 anos de história. E que história! Aliás, essa longa estrada revela a força da química que envolve o grupo – superior a qualquer um de seus integrantes. Basta um olhar mais atento. É algo mágico e que transcende épocas.

Por isso, falar em Mutantes é se referir a uma instituição da música brasileira. Um nome que cruzou oceanos e ganhou respeito do exigente mercado estrangeiro. Cativou e cativa gerações de músicos, alguns deles figuras carimbadas. Haja vista a admiração de nomes como Kurt Cobain, Beck e Sean Lennon. Ou então, a mídia de outros países, que prestou sua reverência com empolgação. O renomado The New York Times, por exemplo, colocou os Mutantes em sua disputada capa. “Nos fez muito orgulhosos de sermos os brasileiros que quebraram a ‘barreira do som’ com nossas guitarras feitas em casa, nossas músicas e atitudes tupiniquins”, desabafou Sérgio Dias.

Agora, as glórias do passado se juntam aos sonhos do futuro bem aqui, com “Mutantes Depois”. Este é próximo dia do resto de nossas vidas, que começa com a iminência de mais um capítulo dessa linda história. E o aguardado disco de inéditas, como manda a cartilha dos Mutantes, está rodeado de suspense. Não teria graça se fosse de outro jeito. Delicioso é poder aproveitar as dicas que nos são dadas e tentar decifrar o que está por vir. Sabemos que terá importantes participações, como a de Devendra Banhart cantando em Mutantes Depois e a preciosa parceria com Tom Zé, velho amigo dos tempos da Tropicália.

Mas é isso mesmo. No o universo Mutantes, o mistério é moeda forte e vigente. Sempre foi assim e também será dessa forma com Mutantes Depois. Um exercício de criatividade e imaginação, que faz bem aos que amam a boa música.

:::: Andreas Kisser – Hubris I & II (2008)

andreas-hubrisDesde o disco Roots (1996) e a consagração do Sepultura, o mundo conheceu um jeito diferente de tocar guitarra no metal. Misturando riffs matadores, levadas percussivas e timbres carregados, Andreas Kisser criou algo realmente novo. A esse estilo, eu dou o nome de root guitar, que se espalhou e redesenhou o cenário metal nos anos 1990. Suas crias puderam ser notadas nos mais variados departamentos do rock/metal. Ajudou até a moldar o que ficou conhecido como new metal (ou nu metal, nü metal).

Andreas Kisser está muito bem no Sepultura, a paixão é a mesma e não pretende deixar a banda. Contudo, sentiu ser hora de dar sua cara a tapas e ampliar o horizonte que tem pela frente. Decidiu lançar um disco solo – uma empreitada e tanto! Está enganado quem pensa que carreira solo é moleza, mesmo para um músico vindo de uma banda consagrada. Entretanto, arriscar é sempre tentador. Às vezes, a melhor alternativa para recarregar a inspiração. O resultado dessa nova investida está aqui: Hubris I & II.

Tudo começou em 2004, com o convite da gravadora holandesa Mascot-Provogue Records. A partir de então, o trabalho foi juntar ideias arquivadas ao longo dos anos e transformá-las em música. “Esse disco é uma consequência de vários temas que escrevi desde 1997”, explica Andreas Kisser. Hubris I & II foi gravado no Brasil, entre 2004 e 2008, com um time seleto. Eis a escalação: Jean Dollabella (bateria), Henrique Portugal (teclado), Rappin’ Hood (voz), Vasco Fae (voz e gaita), Renato Zanuto (teclado), Fábio Sá (baixo acústico), Theo Werneck (loops), Fábio Azeitona (percussão), Eduardo Sujera (percussão), Krucis (cítara), Edgard (tablas), João Barone (bateria), Bi Ribeiro (baixo), Márcio Werneck (percussão), Júnior Moreno (bateria), Kiko e Kadu (voz/coro), Heleno João (repentista), André Abujamra (arranjo de quinteto de sopros).

“Tem muito de Brasil temperando o disco”, destaca Andreas Kisser, que não se prendeu à usual roupagem para explorar algumas de suas principais influências. Hubris I & II combina sua root guitar a metal, rock, repente, música erudita, MPB, entre outras referências. E fez tudo isso sem perder aquilo que de mais precioso tem: a personalidade musical. As 21 faixas foram divididas em dois volumes: um pesado e outro menos denso. Apesar desse contraste, o disco como um todo tem unidade.

Então, vamos lá! Hubris I carrega uma impressionante sintonia entre guitarra, baixo e bateria. Seja lá qual for a melodia, o trio martela riffs com intensidade de enrugar o sinteco. A sonoridade carrega o feeling root de sempre com a intensidade dos watts típicos de sua abordagem. No que diz respeito às composições, as surpresas são variadas – a começar pela introdução de viola caipira e guitarra. Um breve aviso do que está por vir. E vem mesmo!

Conforme o disco vai avançando, nos deparamos com canções inusitadas. Lá estão Eu Humano, a primeira escrita em português na carreira de Andreas Kisser; Virgulândia, que tem a participação do rapper Rappin’ Hood e um solo de guitarra matador; Em Busca do Ouro, parceria com Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs; A Millian Judas Ischariotis, com letra ácida, costurada pelo som enigmático de sitar guitar. Sensacional!

Houve uma dedicação maior a burilar timbres e melodias que solos e pirotecnias (ou virtuosismos). Nesse ponto, Hubris II guarda as nuances mais ousadas. Este talvez seja aquele que mais surpreenda o público acostumado ao Sepultura. Boa parte é de músicas instrumentais, cuja única conexão entre elas está no violão como protagonista. Mas Andreas Kisser avisa: “Não é um disco totalmente purista, só com elementos acústicos. Tem guitarra também”. Claro que sim! E quem disse que ele resistiria à tentação.

Em algumas faixas, a influência de violão clássico se escancara. Esse foi o caso de Domenicana, que teve as presenças de Bi Ribeiro e João Barone, dos Paralamas do Sucesso. Ou então, o ar acústico se mistura à guitarra e ao piano para desenhar climas suaves. Daí surgem melodias sublimes, como em Armonia e Mythos. E o que dizer da exótica faixa-título Hubris? Tem solo de guitarra e bases pesadas com intensas palhetadas ao violão. “É um death metal acústico”, resume Andreas Kisser às gargalhadas.

Quando já achamos que não há mais o que se explorar, vem outra surpresa: O Mais Querido, um repente arretado, feito para homenagear o São Paulo Futebol Clube, seu time do coração. “Repente é o rap brasileiro”, compara. “Sempre achei maravilhoso e resolvi usá-lo para falar de futebol sem ficar clichê”. Por sinal, está é a única faixa em que o guitarrista não toca. Foi uma encomenda ao pernambucano Heleno João, pai de um amigo seu.

A presença da pátria mãe paira por todo Hubris I & II. Aqui está um Andreas Kisser exposto: o lado músico, o lado compositor, o lado arranjador, o lado produtor. Todas as facetas desse guitarrista de mão cheia, que nos mostra de onde vêm a root guitar, suas origens e o que cria no Sepultura. Influência e identidade se encontram num ecletismo sem limite, senão o do bom senso. Está carimbada a estreia fonográfica de Andreas Kisser em carreira solo. O resto vem com a história que começa a ser escrita agora.

:::: Nenhum de Nós – Paz e Amor Acústico (2009)

nenhum-de-nosMe diga uma coisa: o que é sucesso e o que não é? Para muitos, pode ser dinheiro, fama e exposição excessiva na mídia. Tudo bem, mas o sucesso genuíno, aquele que coroa um artista e sua obra, vai muito além disso. Tem longevidade e conteúdo, e o Nenhum de Nós está aí para nos provar isso. Ainda mais quando nos deparamos com um trabalho feito Paz e Amor Acústico (Imã Records/distribuição USA Discos).

Registrado na capital gaúcha (Theatro São Pedro) em dezembro de 2000, o CD foi produzido pela própria banda e faz uma boa geral nos anos de estrada até aquele momento. O material ficou guardado em formato analógico até 2007, quando a trupe decidiu digitalizá-lo. No ano seguinte, com tudo pronto, foram gravadas em estúdio mais três canções (também acústicas): Abraços e Brigas, Um Pequeno Imprevisto e Desejo (uma das inéditas mais recentes deles).

Apesar dos quase dez anos de ineditismo, o resultado ficou com um ar atual. “O disco é uma espécie de presente aos fãs”, define o vocalista Thedy Corrêa. No que se refere às canções, retoques delicados deram certa rebuscada nos arranjos, sem, no entanto, deixar de manter o clima das versões originais. Nada como a maturidade! O quinteto está em paz com sua história e pode se dar o luxo da espontaneidade criativa nas escolhas para o repertório.

“A base do show foi o disco Paz&Amor e mais algumas canções que fazem parte de nossa lista de sucessos (risos). Então, Camila, Camila e O Astronauta de Mármore não poderiam faltar”, explica com bom humor Thedy. “Entretanto, resolvemos também privilegiar coisas menos usuais de nossa carreira e nosso repertório”. E o que seriam essas coisas menos usuais? O vocalista responde com as faixas Jealous Guy (John Lennon), Metamorfose Ambulante (Raul Seixas) e Abraços e Brigas (Edgard Scandurra e Taciana Barros).

Todas essas estiveram presentes nas apresentações do Nenhum de Nós, mas acabaram ficando de fora das gravações na época do show (2000). Paz e Amor Acústico guarda muitos outros pontos especiais. Por exemplo, às três faixas citadas juntam-se outras três sublimes, devidamente explicadas por Thedy: Polaroid (“uma música de Fito Páez que já havíamos gravado em nosso primeiro disco acústico. É muito pedida pelo público quando tocamos em teatros”), Marcas do Que Se Foi (“como tocamos em dezembro, essa música funcionou como um fechamento do show e do ano, de certa maneira. O público se emocionou bastante pela lembrança da canção e pelo tom um tanto nostálgico”) e Pequeno Imprevisto (“parceria minha com o Herbert Vianna, a qual até agora não havia recebido uma versão do Nenhum de Nós. Entrou como um bônus do show”).

Além de Sady Hömrich (bateria, percussão), João Vicenti (acordeon, teclados), Carlos Stein (violão), Veco Marques (violão) e Thedy Corrêa (vocal), a apresentação contou com a participação do baixista Nico Bueno. No mais, é a velha e boa química infalível entre banda e plateia comandando pouco mais de uma hora de muita fibra rock and roll.

Esse é mais ou menos o esboço do que eu quis dizer em relação ao que é sucesso. Ou seja, é uma trajetória duradoura e rica em musicalidade. Com discos que desenham uma trilha muito peculiar e verdadeira em relação à arte, aos sentimentos e ao que se deseja dizer. O mais curioso disso é que não se trata de uma fórmula complexa. Basta seguir firme nas próprias convicções. No caso do Nenhum de Nós, Thedy Corrêa explica por que funcionou: “É o respeito que temos uns pelos outros e a tremenda fé naquilo que fazemos”.

:::: Cachorro Grande – Cinema (2009)

cachorro-grandeO que você tem nas mãos é Cinema, o novo disco da Cachorro Grande. E quer saber duma coisa? Não são apenas novas canções ou aquele mesmo rock carimbado por fibra, pegada certeira e desprendimento. Pode até parecer isso, mas os caras foram realmente além. Fizeram um trabalho recheado, empolgante e visceral. O resultado está bem aí, diante dos seus olhos (e chegando aos seus ouvidos, caso já esteja ouvindo).

Bom, antes que alguém possa perguntar, não se trata de uma homenagem exclusiva à dita sétima arte. Apesar dela também ter servido de inspiração, o nome escolhido veio da lida dentro do estúdio. Gross explica melhor: “durante a mixagem, acrescentamos um monte de detalhes, como sons de moto, vento, gaivota e raio. Parecia que estávamos fazendo a trilha sonora de um filme. O disco tinha que se chamar Cinema”. Dito e feito.

Agora, imagine cinco caras que adoram tomar cerveja curtindo o rock das décadas de 60 e 70. Pense que também são todos músicos e estão gravando seu próximo disco com equipamentos analógicos. Tudo a ver, certo? Pois foi com esse ar vintage que a Cachorro Grande preparou Cinema, “o trabalho mais aprumado em termos de som”, segundo Gross. “Sempre quis gravar desse jeito”, empolga-se Rodolfo.

A banda passou cerca de vinte dias no estúdio da Acit (Porto Alegre) registrando suas doze novas faixas. A produção ficou a cargo do chapa Rafael Ramos, que mais uma vez conseguiu captar a mensagem dos roqueiros gaúchos – haja vista a satisfação dos caras, resumida nas palavras do Gabriel: “Conseguimos reproduzir todas as nossas ideias. Deu trabalho, mas aconteceu tranquilamente”.

Claro que para se chegar a tal ponto foi preciso um fraternal entrosamento. Além de ser uma banda que está há dez anos na estrada, a formação atual é a mesma desde 2005. Depois de muitos shows e um disco (Todos os Tempos), Beto Bruno (voz), Marcelo Gross (guitarra, voz), Rodolfo Krieger (baixo, voz), Pedro Pelotas (piano/teclado) e Gabriel Azambuja (bateria) encontraram a medida exata para fazer sua química acontecer. Qual é o segredo? Pelotas arrisca com bom humor: “Ainda fazemos rock pra nos divertir, tomar cerveja, viajar e dar risada. Só que estamos nos levando um pouco mais a sério”.

O repertório ficou uma colcha costurada com retalhos de psicodelia, instrumentos como cítara, bases densas, ambiências e umas outras maluquices (no bom sentido, claro). “É um disco de space rock”, descreve Gross. “A diferença entre esse e os nossos outros é que deixamos nos levar mais pela sonoridade dos anos 70, de Pink Floyd, Jethro Tull e Led Zeppelin”. Outro detalhe relevante é que todos participaram do processo criativo com maior envolvimento. Há, inclusive, A Hora do Brasil, uma composição assinada pelos cinco – feito inédito. “Essa é muito especial porque foi a primeira vez que nós cinco fizemos uma música juntos”, conta Pelotas.

Olha, o que você tem nas mãos é, acima de tudo, um discão de rock. Coisa fina, de primeira linha. Que fala de assuntos que eu, você e qualquer um entende. Genuíno reflexo daquilo feito com paixão, o ingrediente essencial das boas receitas. Como o Beto disse: “É preciso ser verdadeiro e manter a música em primeiro lugar, antes do penteado, da roupa ou do dinheiro. E é isso o que eu gostaria de ver mais nas bandas de hoje”.

A Cachorro Grande é a mais irreverente e carismática banda do rock nacional na atualidade, e Cinema é a sua mais nova empreitada. Abra uma cerveja e ouça sem moderação!

edgar-scandurra-ao-vivo-dvd:::: Edgard Scandurra – Ao Vivo (2010)

O que vem à cabeça quando se fala em Edgard Scandurra?

Quem está por fora da realidade talvez diga apenas “rock e Ira!” – tudo bem, afinal foi ele quem escreveu a esmagadora maior parte das canções da banda. Por outro lado, quem gosta e acompanha o nosso underground sabe que é muito mais que isso e que o guitarrista paulistano vai além desses rótulos.

É um cara livre, criativo e sedento por experimentar coisas novas na música. Carrega características que lhe permitem um vasto horizonte de possibilidades. E uma boa amostra disso está em seu mais novo CD e DVD, Ao Vivo.

Partindo da ideia de celebrar os 20 anos do emblemático disco Amigos Invisíveis (1989), Scandurra preparou um show repleto de suas investidas. Gravado em maio de 2009, no Teatro Fecap (São Paulo), traz referências diversas no repertório de 18 faixas.

Desde coisas menos populares do Ira! (exceto por Tolices, claro) a canções do Benzina (seu projeto de música eletrônica), do Amor Incondicional (seu último disco solo), versões para The Who (Our Love Was) e Guilherme Arantes (Meu Mundo e Nada Mais).

Para engrossar o caldo, três inéditas: A Dança do Soldado (Mantenha a calma/Siga os seus preceitos/Jogue na mala sem alça os preconceitos/E se teu pai não te aceita/A tua mãe te dá a receita de seu creme de beleza), Kaput (O melhor da nossa juventude acabou/Kaput/Ao menos, saímos com saúde/…/Nosso amor/Kaput/Doce e amargo como um bom vermute) e Não Precisa Me Amar (Quando olho para trás/E a maneira como me portei/Logo penso em você/Não precisa me amar).

Tudo em Ao Vivo foi temperado com arranjos modernos e timbres deliciosos, graças ao sabor forte de sua inseparável guitarra – a parceira de sempre, marca registrada e bandeira de seu triunfo notório no rock pop brasileiro. O protagonista é, naturalmente, Edgard Scandurra, mas os méritos devem ser divididos com todos os seus “amigos invisíveis”: o filho Daniel Scandurra (baixo), Dustan Gallas (teclado), Felipe Vieira (bateria), Marisa Brito (vocal), Juliana R. (vocal).

Inclua aí também os convidados especiais, que aparecem em uma faixa cada um: Charlie Crooijmans (Our Love Was), Fernanda Takai (Tolices), Bárbara Eugênia (Culto de Amor), Zélia Duncan (Abraços e Brigas), Jorge Du Peixe (Você Não Sabe Quem Eu Sou) e Guilherme Arantes (Meu Mundo e Nada Mais).

Nos extras, o guitarrista apresenta uma tentadora lagosta ao molho de manteiga, com salada e coquetel de lagostim – tudo preparado por ele mesmo, no restaurante que tem em São Paulo, chamado Le Petit Trou. É isso mesmo! O homem coloca o avental e fala de sua paixão por cozinhar.

Além disso, nos dá uma boa geral da carreira (incluindo depoimentos de figuras como André Midani e Paulo Junqueiro). Por fim, também encontramos cenas da passagem de som para o show que virou o DVD. Três situações diferentes devidamente editadas e transformadas em uma espécie de documentário, batizado Na Cozinha Com Scandurra. Ficou legal!

Pois bem, Ao Vivo é o mais novo trabalho desse incansável guitar hero do underground brasileiro. Do rock à nossa música em geral, Scandurra é um cara emblemático e atuante. Ele é de casa, e transita entre gerações de maneira natural, visceral e, claro, fundamental. Não se prende a nenhum estilo senão ao seu jeito de tocar guitarra. É por isso que gravou com vários artistas, dos consagrados às revelações. E é por isso que está aí, trabalhando com outros tantos (por exemplo, Karina Buhr, Marcelo Jeneci, Arnaldo Antunes e o elogiado Pequeno Cidadão).

Esse é o retrato fiel de um músico que se tornou referência por conta da marca que cravou há quase 30 anos na cultura pop do Brasil – sem dúvida!

Como o tempo não para, nem as ideias, neste exato momento ele deve estar trancado em um estúdio preparando sua próxima tacada. Ninguém segura o homem! “Acho importante as pessoas saberem que estou em plena atividade e vivendo um dos meus momentos mais criativos”, ressalta Scandurra. “Consegui atingir o objetivo principal que tenho desde o início da carreira, que é o de passear livremente entre as gerações de artistas e público, sempre apontando novos caminhos”.

Então, vamos fazer assim: melhor do que tentar adivinhar o que virá pela frente é curtir Ao Vivo. Tem rock, tem pop e muitas das boas viagens sonoras típicas da pegada ímpar desse guitarrista. Aproveite! E, para os mais desconfiados, o recado que deixo é que há, sim, muita vida após o Ira!, e Edgard Scandurra está aí, vivo e ao vivo para nos mostrar!

:::: Roberto Menescal & Andy Summers – United Kingdom of Ipanema (2010)

roberto-menescal-andy-summers_united-kingdom-of-ipanemaUm é uma sumidade da bossa nova, um dos pilares que ajudaram a erguer e tornar o estilo brasileiro consistente. O outro está normalmente listado junto dos maiores guitarristas do mundo e imprimiu uma marca bastante peculiar na forma de se tocar rock. Apesar das diferentes histórias, Roberto Menescal e Andy Summers têm muitos pontos em comum.

Menescal não passou a carreira ligado apenas a um banquinho e um violão. Toca guitarra e já fez trabalhos no rock – por exemplo, produziu Raul Seixas. Summers, embora seja sempre associado ao Police, o que é normal, direcionou sua carreira solo para paisagens jazzísticas. Se lembrarmos que a bossa nova teve grande influência do jazz, conseguimos resolver a equação que une esses dois músicos sensacionais.

A ligação estreita entre eles já vem de algum tempo, mas só agora ganhou um registro oficial. United Kingdom of Ipanema – Roberto Menescal Convida Andy Summers foi gravado no dia 19 de novembro de 2008, no Teatro Sesc Ginástico (Rio de Janeiro). Traz um repertório com músicas do Police e muita bossa nova – todas escolhidas, claro, a duas cabeças. “Pelo fato do Andy não ser somente rock e eu ser um curioso por outros estilos, aceitamos esse desafio, que nos tem dado muita satisfação”, observa Menescal.

Celebração é uma boa palavra para se usar quando você estiver pensando sobre United Kingdom of Ipanema – Roberto Menescal Convida Andy Summers. As imagens não nos deixam dúvida de que Menescal e Summers estão à vontade, curtindo cada nota, cada acorde, cada melodia que tocam. E estão curtindo fazer isso juntos. Basta assistirmos às primeiras canções para vermos o quão intensa funciona a química deles no palco.

Embora o ilustre convidado tenha sido Andy Summers, outras presenças tornaram o show ainda mais especial: Cristina Braga, Luiz Carlos Miéle, Pery Ribeiro, Leila Pinheiro, Marcos Valle, Bossacucanova, Fernanda Takai e Cris Dellano (“uma participação especialíssima”, ressalta Menescal). Inclua nessa a banda que sempre acompanha Menescal pelos cantos do planeta: Adriano Giffoni (contrabaixo), Adriano Souza (piano) e João Cortez (bateria).

Se Menescal está à vontade no “sangue” rocker da levada de Roxanne, Summers mostra bastante intimidade com o balanço bossa-noviano no solo de Garota de Ipanema. O guitarrista pegou rápido o jeito da coisa, como conta Menescal: “O Andy apaixonou-se pela música brasileira, e a bossa nova em especial, quando ouviu há muitos anos a música Manhã de Carnaval. Daí em diante, passou a ouvir muitas coisas e a tentar fazer a ‘batidinha’ da bossa. Quando começamos a tocar juntos (2006), ele logo criou sua própria batida de bossa. Um ano depois disso, no show que fizemos para o DVD, ele já estava bem ‘saliente’”.

É claro que o trabalho como um todo deixou a dupla com um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto. Entretanto, sempre há essa ou aquela música que os tenha deixado com um dedinho a mais de orgulho. O anfitrião brasileiro revela as suas: “Sem duvida, Manhã de Carnaval é uma e Roxanne outra”.

Para quem tem história para contar (e tocar) como eles têm, o propósito de um registro como esse fica ainda mais genuíno. É saboroso de se ver e reparar nos mínimos detalhes da produção de muito bom gosto. Não é superprodução de altas cifras, mas sim de um projeto que tem poesia (bem sugestivo à bossa nova, não?). E depois que os minutos iniciais nos digerem a curiosidade, vem a doce qualidade maior da música: tocar a alma. Para mim, não há dúvida de que se trata de um DVD antológico.

“Mais uma vez, fica claro que pela música as coisas resolvem-se com mais facilidade e em ótimo astral”, completa o reflexivo Menescal. “Talvez as guerras pudessem ser evitadas se trocássemos as armas por instrumentos musicais – é uma ideia. Fico feliz em constatar que, se estivermos com nossos canais abertos, a vida nos traz sempre novas oportunidades. E é isso o que nos mantém acesos para prosseguir nesse caminho bem gratificante que é o da música”.

Então, é isso! Ah, sim… Talvez você deva ter se perguntado sobre o título, United Kingdom of Ipanema. Bom, a explicação é essa que provavelmente tenha imaginado: Andy Summers é britânico e Roberto Menescal é um capixaba que há muito aportou seu coração em Ipanema. É carioca de coração. Sacou?

O resto é pura arte… Entregue-se!

:::: Lanny Gordin – Sr. Musicalidade (2013)

lanny-diaboChinês de nascença (Xangai), brasileiro de uma vida inteira e músico desde sempre. Talvez esse seja o melhor ponto de partida para se falar de Lanny Gordin. O sujeito de figura simples e doçura no olhar costuma surpreender até mesmo quem o conhece há décadas. A razão está no jeito como toca sua guitarra. São fraseados saídos de uma nítida manifestação do capricho dos anjos.

Distante da vaidade e de todos os apetrechos fúteis normalmente incorporados por artistas consagrados, este cara esbanja apenas musicalidade – e da boa! Carrega um vasto mundo de melodias, harmonias, notas improváveis e soluções cativantes. Suas performances são uma reverência ao bom gosto e à paz de espírito.

Na estrada desde a segunda metade dos anos 1960, Lanny é um de nossos melhores e mais importantes guitarristas. Trabalhou com diversos dos chamados monstros da MPB, entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Hermeto Pascoal, Elis Regina e Jards Macalé. Sua marca está impressa nos primórdios dessa turma toda, em discos clássicos.

Misturando o rock ácido de Jimi Hendrix ao jazz norte-americano e ritmos brasileiros, ele construiu uma trilha genuinamente sua. Qualquer um que se diz amante de música deveria ouvi-lo com atenção e vê-lo tocar ao vivo, pelo menos, uma vez. É fazer com que corpo e alma testemunhem inspiração em estado bruto.

Nos anos 2000, depois de trabalhos com outros artistas e cerca de duas décadas enfrentando os altos e baixos da vida, Lanny foi resgatado pelo lendário produtor Luiz Calanca (Baratos Afins). O resultado veio na forma de seu primeiro álbum solo, homônimo de 2001. Desde então, o guitarrista passou a explorar uma sonoridade de cores mais tranquilas e sotaque jazzy.

Sua obra ganhou novos registros: Projeto Alfa (2004, volumes 1 e 2), o excelente Lanny Duos (2007, com participações especiais de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Edgard Scandurra, entre outros) e Auto-Hipnose (2010, junto com a banda Kaoll).

Lanny Gordin é um patrimônio do povo brasileiro. Uma lenda à disposição do prestígio que devemos a ele. Num país em que a memória cultural costuma agonizar com o tempo, saber que ainda podemos assistir a um mestre genial de perto é mais que um alívio prazeroso. É um privilégio. Experimente você!